Usinas de cana se tornam construções “fantasmas” no interior de São Paulo

Usina São Carlos, em Guariba, interior de SP

A paisagem da zona rural na região de Ribeirão Preto é praticamente monocromática. Para qualquer lugar que se olhe, o cenário é o verde das lavouras de cana-de-açúcar por todos os lados.
Mas, se procurar bem, esse mesmo cenário “esconde” chaminés de antigas usinas ou mesmo prédios inteiros, totalmente inativos.
Seja por causa da crise, da mudança na regulamentação do setor ou mesmo por uma opção dos grupos sucroenergéticos, essas usinas de açúcar e etanol se tornaram estranhas à paisagem.
Há ao menos seis exemplos só na região de Ribeirão Preto, mais tradicional polo de produção de açúcar e etanol do país e autointitulada “capital do agronegócio”, que hoje não tem nenhuma usina moendo cana. A última que operou na área, a Galo Bravo, já não funciona há seis anos, desde uma aventura mal sucedida que teve o empresário Ricardo Mansur (ex-Mappin e Mesbla) no comando.
Então chamada Cerp (Central Energética Ribeirão Preto), teve falência decretada pela Justiça há cerca de seis meses devido a uma dívida no valor de R$ 33 mil. Mansur foi gestor da companhia entre agosto de 2009 e julho de 2010 e acumulou disputas com a família Balbo, dona da Galo Bravo.
Hoje no local há apenas o “esqueleto” do prédio, ferrugem e mato alto.
Também em Ribeirão, a Usina Perdigão foi desativada há quase três décadas, mas mantém sua chaminé em meio às lavouras de cana.
A cerca de 60 km de Ribeirão, em Jaboticabal, uma das mais recentes desativações é a da Usina São Carlos, em Jaboticabal, após a venda de ativos para o grupo São Martinho, em 2012, por um total de R$ 199,6 milhões.
À época, a São Martinho alegou que a sua principal unidade, em Pradópolis, tinha capacidade ociosa para processar o volume que era moído em Jaboticabal, num raio médio de 30 quilômetros de distância.
“A questão é que a mecanização, a tecnologia, atingiu não só as lavouras, mas também a parte industrial. O que antes era feito em dois ou três lugares passou a ser feito num só, e as usinas se interessam não pela parte física delas, mas pela cana”, afirmou Ignacio Bernardes, 82, membro da Pastoral do Migrante de Guariba.
A entidade atende cortadores que deixavam o norte de Minas e o Nordeste em busca de emprego no interior de São Paulo, fluxo drasticamente reduzido com o avanço da mecanização.
NOVA MIGRAÇÃO
A unidade de Jaboticabal é vigiada por seguranças e os prédios apresentam boas condições físicas. Antes dela, a Santa Luiza, em Motuca, foi fechada em 2007 após aquisição em conjunto por três grupos sucroenergéticos.
O cortador de cana João Pereira Mouta, 35, que deixou Crisópolis (BA) para morar em Serrana no início dos anos 2000, trabalhou tanto na São Carlos como na Santa Luiza. Ele afirma que se tornou comum a necessidade de migrar dentro da própria região em busca de emprego.
“Hoje ainda tenho emprego, mas não sei na próxima safra”, diz.
Em Sertãozinho, a Usina Albertina foi fechada após seis anos de processo de recuperação judicial. Outra unidade com dificuldades financeiras e que deixou de processar cana é a Nova União, em Serrana, cujas terras no entorno são alvo constante de invasões de sem-terra.
A situação, no entanto, não é exclusiva da região de Ribeirão. Em todo o país, pelo menos 60 usinas deixaram de moer cana nas últimas safras devido, entre outros fatores, ao endividamento do setor.
Há atualmente, segundo o sistema de acompanhamento da produção canavieira do Ministério da Agricultura, 380 usinas no país, das quais 48 na macrorregião de Ribeirão.

Marcelo Toledo Joel Silva

Fonte: Folha de S.Paulo, 8/7/17

Transporte de cana-de-açúcar sem lona gera 22 multas na região de Ribeirão Preto

Lei que obriga caminhoneiros a cobrir a carga entrou em vigor há um mês. Motoristas dizem que medida garante mais segurança nas rodovias, mas nem todos cumprem determinação.

Polícia Rodoviária já multou 22 caminhoneiros na região de Ribeirão Preto (SP) por descumprir a determinação do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) que exige o uso de lonas durante o transporte de cana-de-açúcar. A medida entrou em vigor há exatamente um mês.

Depois de ser adiada duas vezes desde 2013, a pedido das indústrias do setor sucroenergético, a exigência do Contran passou a valer em 1º de junho e a infração é considerada grave: o motorista recebe cinco pontos na carteira e deve pagar multa de R$ 195,23.
O sargento da Polícia Rodoviária Thomaz Bueno afirma que a fiscalização foi intensificada, principalmente nos trechos próximos a usinas de açúcar e etanol, onde o tráfego de caminhões carregados com cana é maior.

“Às vezes, o pessoal coloca a lona de forma inadequada, não cobre realmente a cana, ou coloca a lona simplesmente por cima, sem amarrar. Então, a gente insiste aos caminhoneiros que cubram a carga de forma correta, porque é uma infração grave”, diz.

Bueno explica que o objetivo da norma é evitar que a carga espalhe na pista ou caia sobre outros veículos durante o trajeto, e provoque acidentes. Na região de Ribeirão, é comum encontrar farelo de cana ou mesmo pedaços da planta nas rodovias.

“A gente está fazendo as autuações não só nos caminhões sem lona, mas o caminhão cuja sinalização está irregular, pneu em mau estado de conservação, é uma série de autuações que envolvem o caminhão de cana”, completa.

Caminhoneiros descumprem determinação e transportam cana-de-açúcar sem lona (Foto: Reprodução/EPTV)

Críticas

A medida chegou a ser criticada pelo setor sucroenergético, que reclamou de gasto desnecessário com a instalação das lonas – o custo varia de R$ 1,5 mil a R$ 8 mil – e defendeu que o transporte da cana, se feito corretamente, dispensa o uso desse acessório.
O material de alta densidade, geralmente à base de polietileno, precisa cobrir todo o compartimento e ser resistente o bastante para suportar os vários acionamentos diários, que, em média, passam de seis vezes.

Os usuários das rodovias, por outro lado, comemoram a vigência da determinação, afirmando que deve trazer mais segurança. O motorista Evandro Lucas Costa viaja de moto e diz que o uso das lonas deve evitar acidentes.

“Eu sou de Minas Gerais e só de vez em venho a São Paulo, mas a gente ainda vê alguns caminhões sem lona ainda. Seria bom se todos estivessem usando porque melhorava bem a segurança para todos, não só para motoqueiro, mas para carros também”, afirma.

Alternativa para possíveis crises energéticas, cogeração com bagaço da cana-de-açúcar chega a 30 anos

Energia elétrica exportada e gerada a partir do bagaço representou 5% do consumo nacional em 2016, mas poderia ser 7 vezes maior e ‘substituir’ hidrelétricas na estiagem. Leilões não compensam custos, dizem representantes do setor.

Cogeração de energia a partir do bagaço da cana completa 30 anos em 2017 (Foto: Tadeu Fessel/Única)

O ano era 1987 e o empresário Jairo Balbo, de Sertãozinho (SP), só utilizava a energia gerada pela queima do bagaço da cana-de-açúcar para manter funcionando as caldeiras da Usina São Francisco em caso de emergência.

Trinta anos depois, a indústria dele, assim como outras quase 200 do setor em todo o país, não só utiliza a biomassa como principal fonte de energia na maior parte do ano, como também a comercializa.

“Aquele foi o melhor contrato que fiz até hoje. Naquele primeiro momento quando eu tinha [energia] eu fornecia, quando eu não tinha eu recebia”, descreve o usineiro do interior de São Paulo.

Uma geração que, com outras biomassas, responde por 8% do que se consome em território nacional e que poderia abastecer uma cidade de 11 milhões de unidades residenciais, se levadas em conta todas as unidades processadoras de biomassa do país. Uma produção que já movimentou a cifra de R$ 72,4 bilhões em 2013, segundo um dos únicos levantamentos feitos pela União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Única).

Diante da necessidade de se recorrer a energias renováveis, defendidas pelo Acordo do Clima de Paris contra o aquecimento global, a cogeração a partir da cana apresenta-se como uma alternativa sustentável complementar à hídrica e uma solução futura contra apagões no período da estiagem, mas está aquém de sua capacidade.

Segundo profissionais do segmento, ela poderia ser sete vezes maior, não fossem questões como os custos de renovação de equipamentos, chamado de retrofit, o baixo retorno da negociação da energia e a infraestrutura necessária para interligar as usinas à rede de distribuição.

“O que o setor ainda tem como pauta é a necessidade de uma política setorial de longo prazo não só para a bioeletricidade, mas também para o etanol, para identificarmos qual é o papel dele na matriz enérgica do país”, afirma Zilmar José Souza, gerente de bioeletricidade da Unica.

Usinas pioneiras
O potencial termoelétrico da biomassa não é inédito. Além de ter acompanhado a rotina das unidades produtoras, como fonte de energia para manutenção de suas atividades, países como Ilhas Maurício, Cuba e Estados Unidos têm diferentes políticas implementadas nesse sentido.

“O processo já vem desde o século passado. O setor sempre buscou autossuficiência em energia térmica e elétrica através do uso do bagaço das caldeiras”, diz Souza.

Mas foi nos anos 1980 que as usinas brasileiras começaram a se mobilizar para fazer com que o excedente da eletricidade gerada fosse comercializado. As plantas pioneiras, segundo a Única, foram três unidades na região de Ribeirão Preto: a São Francisco, em Sertãozinho, a São Martinho, em Pradópolis (SP), e a Vale do Rosário, em Morro Agudo (SP).

Ideia que, com um investimento hoje estimado em R$ 1 milhão, e equivalente ao retorno de meia safra, Jairo Balbo concretizou na São Francisco a partir de maio daquele mesmo ano e que funciona dentro de uma lógica simples:

A partir do vapor de alta pressão gerado pela queima do bagaço, giram-se as turbinas, mecânica que coloca para funcionar moendas ou que pode ser conjugada em um gerador de energia elétrica. Como nem toda a energia produzida era utilizada, o usineiro decidiu colocá-la à venda.

“Quando eu tinha, eu fornecia. Quando eu não tinha eu recebia. Existia um medo muito grande que nós pudéssemos causar um problema na rede por estar entrando, mas não causou problema algum e foi um sucesso a interligação. Fiquei interligado no sistema de tal forma que se acontecesse alguma coisa em Itaipu nós sentíamos aqui na usina, entendeu?”, afirma Balbo.

Nos primeiros meses, dos 3 megawatts-hora (MWh) produzidos pela usina em Sertãozinho, 86,66% – ou seja, 2,6 – eram suficientes para manter a unidade em funcionamento, enquanto os 13,33% restantes eram comercializados.

Três décadas depois, não só a cogeração total dele se elevou, ficando sete vezes maior, quanto o nível de “exportação” para a rede subiu. Dos 21 Mwh processados, 15 (71,42%) são utilizados internamente, mas em torno de 6 – algo em torno de 28,5% – são negociados e convertidos em até 4% do faturamento.

“Você tem que fazer investimento baseado no excedente vendido e o que fica no caixa não tira nenhuma usina do buraco. O carro-chefe é açúcar e álcool, mas é um produto que está disponível e de interesse das usinas e do Brasil”, afirma o usineiro, que detém outra indústria em Sertãozinho, a Santo Antônio, e ações na Usina Uberaba, em Minas Gerais.

Alternativa energética
O exemplo da Usina São Francisco se multiplicou e virou realidade em 180 usinas, quase a metade das 398 existentes em todo o país, que exportaram, em 2016, 21,2 bilhões de quilowatts/hora para o Sistema Interligado Nacional (SIN), o equivalente a 5% da energia consumida no Brasil, segundo a Única.

Dentre as biomassas existentes, o que inclui casca de arroz e capim elefante, o bagaço da cana-de-açúcar responde por 99% da capacidade de geração de energia elétrica, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Mais de 90% dessa geração se concentra no centro-sul do país, com destaque para São Paulo, que responde pela metade da cogeração do setor, com 11,8 gigawatts/hora (gwh). O que poupa em média o uso de 15% da água dos reservatórios das hidrelétricas na região.
Essa eletricidade é 100% garantida na safra, quando as usinas processam a cana para a produção de álcool e açúcar e o bagaço é abundante – uma tonelada de cana, da qual se aproveitam 250 quilos do bagaço, resulta em média em 80,10kwh. Nos demais meses, a maior parte das usinas ou utiliza estoques próprios da matéria-prima para a queima ou compra energia elétrica da rede.

“Normalmente a usina para entre três e quatro meses no final do ano. Nesse período em que ela não está moendo, como o consumo é muito inferior, você acaba tendo um contrato com a concessionária local”, explica Raul Guaragna, diretor de operações agroindustriais do Grupo Tereos, com sete usinas em território nacional.

Mas é justamente nessa particularidade que está o maior potencial da bioenergia. O período em que o bagaço mais tem condições de cogerar é o mesmo marcado pela estiagem e seu consequente impacto negativo sobre o funcionamento das hidrelétricas.

“Ela é a fonte mais complementar com a híbrida, não é considerada pelo setor elétrico, pelo operador, uma fonte intermitente, como a eólica e a solar. A gente é sazonal, mas uma vez iniciada com a safra é muito regular, para o operador é uma energia muito bem vinda”, diz o gerente da Única.

Entraves
Trinta anos depois das primeiras experiências de cogeração, a bioeletricidade da cana ainda não é maioria entre as usinas. Em parte, porque custa caro reformar parques tecnológicos e gastar com troca de caldeiras de baixa por alta pressão.

Investimentos que, segundo a Única, não encontram compensação nos leilões de energia feitos dentro do país, sobretudo entre as indústrias de menor porte. “Pode custar R$ 300 milhões, mas varia de caso a caso. É um investimento vultoso, uma decisão que tem que estar muito bem embasada”, afirma Souza.

Em torno de 20% desses custos podem se concentrar no barramento da usina, geralmente afastada dos centros urbanos, até o ponto de conexão com a concessionária de energia elétrica, que controla a rede de distribuição, segundo Souza. “Pode estar a 40, 50 quilômetros de distância. Todo esse custo quem tem que pagar é a usina, dependendo da distância que você está é um custo que pode inviabilizar o projeto.”

Detentor de sete usinas no oeste paulista, o Grupo Tereos investiu R$ 500 milhões para iniciar, a partir do zero, sua cogeração de eletricidade a partir do bagaço da cana há 15 anos e pretende investir mais R$ 100 milhões até 2018 para ampliar sua capacidade de produção elétrica, afirma Guaragna.

Aportes que, segundo o diretor de operações agroindustriais, consistem de três eixos básicos de investimento: as caldeiras de alta pressão, ou seja, que geram vapor entre 67 e 100 bares, o turbo gerador de energia elétrica, que converte esse vapor em eletricidade, e a linha de distribuição até a rede.

“Isso custa muito dinheiro. O setor já é intensivo em capital. Para fazer investimento desse tipo, não só pelo tamanho, mas pela complexidade. Tem muitos grupos que não necessariamente têm a capacidade técnica de contar uma assessoria interna para desenhar esses equipamentos de uma maneira correta. O outro fato é que precisa ter um leilão de energia elétrica incentivada, que permita às empresas que estão fazendo investimento que tenham retorno sobre esse investimento”, defende.

De todas as unidades da Tereos, autossuficientes durante a safra e localizadas em municípios como Olímpia (SP), Tanabi (SP) e Sertãozinho (SP), seis exportam 1.080 gigawatts por ano safra de energia excedente para a rede, dez vezes mais se comparado ao início das operações em 2013.

“O que a gente exporta de energia dá pra 1,5 milhão de habitantes, considerando o consumo residencial. É mais do que Ribeirão Preto, São José do Rio preto e Franca consomem juntas”, afirma Guaragna.

Atividade que gera um retorno financeiro equivalente a 8% do faturamento do grupo, segundo o diretor. Ao mesmo tempo, a autossuficiência energética representa poupar aproximadamente R$ 90 milhões que seriam gastos por ano com a compra de energia elétrica fornecida convencionalmente.

“Se as usinas não tivessem caldeiras e não cogerassem energia, indo por essa premissa, nós teríamos que comprar energia elétrica do grid. Considerando um contrato típico, a gente estaria gastando algo em torno de R$ 90 milhões por safra no grupo.”

Caldeiras de alta pressão para geração de bioeletricidade (Foto: Tadeu Fessel/ Divulgação Única)

Créditos de energia

A energia elétrica exportada pelas usinas para a rede aberta, o linhão, percorre o caminho mais rápido até seu consumo final, mas os créditos gerados pela atividade podem ser negociados entre unidades geradoras e consumidoras em localidades distintas por meio do mercado livre de energia.

Nesse caso, os valores são compensados na fatura mensal de energia elétrica entregue pela concessionária.

Essa troca hoje é regulamentada pelo Selo Energia Verde, certificação criada por entidades ligadas ao setor sucroenergético – Única, Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel) -, e que atualmente reúne 55 usinas geradoras em todo o país.

“Investimento alto, como todo investimento na indústria, o problema era mais a indefinição. A gente não tinha noção de como ia funcionar. Tivemos até várias críticas dentro do pessoal de operação, com medo desse investimento, porque a energia elétrica da biomassa estava começando. Já existia havia muitos anos o autoconsumo, mas a exportação era algo novo”, relata o empresário Antônio Tonielo, detentor das usinas Viralcool I e II, credenciadas pelo selo.

Existentes há 32 anos, as plantas desde sempre foram autossuficientes, mas começaram a exportar a partir de 2002. Na época, eram 3 mwh, 13 vezes menos do que hoje – 40mwh. Essa evolução, que se deve a investimentos em caldeiras, geradores e tecnologias para otimizar a produção de vapor, por exemplo, também se traduziu no faturamento.

Hoje, a cogeração, que antes representava 1%, responde por 8%. “Unidades como a Virálcool mantêm uma cidade como Ribeirão Preto.”

Conta mais barata
Também parte do programa Selo Energia Verde, a Cooperativa dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado (Copercana), em Sertãozinho, foi a primeira empresa certificada como uma unidade consumidora.

Hoje, 80% do que ela consome de energia em suas sete unidades – a matriz, a planta beneficiadora de grãos e cinco supermercados – vem do mercado livre de energia, em contraponto ao mercado cativo, o ligado às concessionárias, afirma Tiago Sponchiado Zampronio, encarregado de controladoria da Copercana.

Desde o ano passado, ele garante que a cooperativa tem tido uma economia financeira de 25% em relação ao que pagaria se estivesse utilizando eletricidade nos moldes convencionais.

“É mais barata a negociação comprando da usina. Teoricamente a gente está comprando de quem a CPFL compra. (…) Recebo uma nota fiscal de compra da usina e informo à CPFL através da Câmara Comercializadora de Energia Elétrica o quanto adquiri. A cpfl faz a cobrança, manda a fatura normal dela, só que nessa fatura tem um desconto da energia que eu comprei da usina”, explica.
Além da questão burocrática, foram necessárias adequações nos equipamentos de medicação.

“Primeiro tem que estar enquadrado dentro de uma faixa de consumo. O consumidor final não consegue, tem que ter uma demanda alta de consumo de energia. A papelada exigida é muito grande, por isso tivemos que contratar uma assessoria, que nos auxiliou junto à CCEE”, diz.

Hoje, 80% do que a empresa consome vem do mercado livre de energia, devido ao que consome em sete unidades – além da matriz e de uma planta de beneficiamento de grãos em Sertãozinho, são mais cinco supermercados na região.

“20% ainda está dentro do mercado cativo porque é tudo consumo baixo, são as filiais de ferragem, de comercialização de defensivos agrícolas, o consumo é baixo, então não se consegue migrar.”

O mesmo conceito também permite a doação de créditos de energia, como os angariados pelo Hospital de Câncer de Barretos por meio do projeto “Energia do Bem”. Os fundos doados pelo setor sucroenergético ajudaram o centro médico a economizar R$ 1,1 milhão na conta de luz em 2016, o equivalente a 20% de todo o seu consumo.

Para cada megawatt-hora doado – que custou R$ 120 por usina participante – o hospital recebeu R$ 250. “O HC de Barretos não é um consumidor cativo da CPFL, é um consumidor livre. Ele pode estar fisicamente sendo atendido pela rede da CPFL, mas comercialmente não, eu descolo o comercial do físico”, afirma Souza, gerente da Única.

Por Rodolfo Tiengo, G1 Ribeirão e Franca

Fonte: G1

Maior praga da cana-de-açúcar, broca pode estar com dias contados

Nova variedade da cana foi aprovada pela CTNBio. Prejuízos da broca na lavoura chegam a R$ 5 bilhões/ano

O setor sucroalcooleiro comemora a aprovação para uso comercial da primeira cana-de-açúcar geneticamente modificada do mundo. A variedade da cana foi desenvolvida pelo CTC, o Centro de Tecnologia Canavieira.

A variedade, chamada de CTC 20 Bt, foi desenvolvida para ser resistente à broca-da-cana, que tem nome científico de Diatraea saccharallis. Uma praga que provoca prejuízo de cerca de R$ 5 bilhões por ano ao setor.

Depois de sete anos e meio de estudos, o CTC apresentou a variedade à CTNBio, Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. A CTNBio levou um ano e meio para aprovar a variedade.

Uma das razões que fundamentaram a aprovação é que os estudos garantem que as propriedades do açúcar e do álcool não foram modificadas e que também não houve danos ambientais.

Para o professor Marcos Fava Neves, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (Fearp) da USP, especialista em agronegócio, a notícia não poderia ter sido melhor. Para ele, o Brasil vai dar um salto enorme na produção e exportação dos produtos derivados da cana, como açúcar e etanol.

O Brasil exportou na última safra, de 2016-2017, 28 milhões de toneladas de açúcar para cerca de 150 países, gerando receita de R$ 35 bilhões na balança comercial.

O Centro de Tecnologia Canavieira foi criado em 1969 por iniciativa de um grupo de usinas da região de Piracicaba e, desde então, se transformou no principal polo de desenvolvimento da cana-de-açúcar do País e um dos mais importantes do mundo. Em quase 50 anos, o CTC conseguiu aumentar a produtividade da cana-de-açúcar em 40%.

Fonte: Radio USP

Cana: emissão de gases da queima diminuiu 44% em São Paulo

O estado é o principal produtor da cana-de-açúcar e representa 54,8% da produção nacional

Entre 1990 e 2015, as emissões de gases de efeito estufa (GEE) geradas pela colheita da cana-de-açúcar foram reduzidas em 44% no Estado de São Paulo. O registro consta de estudo recente que atualizou informações do 1º Inventário de Emissões Antrópicas de Gases de Efeitos Estufa Diretos e Indiretos do Estado de São Paulo, realizado por pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente (SP), seguindo a mais recente metodologia publicada pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

De acordo com as informações da Embrapa, o documento traz estimativas anuais para o estado e municípios. Apesar de o novo método resultar em maiores emissões de gases em relação ao anterior, nas mesmas condições de produção e quantidade de cana-de-açúcar, o resultado mais importante é a acentuada redução da emissão nos últimos anos, efeito direto da adoção do corte da cana crua, preconizado por lei e adotado progressivamente no Estado de São Paulo.

Método mais adequado de medição

O método mais recente do IPCC, de 2006, apresenta diferentes fatores de emissão de gases de efeito estufa para a queima de resíduos agrícolas em relação ao método anterior, de 1996. Com exceção do metano (CH4), cujo fator de emissão foi pouquíssimo alterado, os fatores de emissão de dióxido de carbono (CO2), óxido nitroso (N2O) e óxidos de nitrogênio (NOX) foram estimados em metade do valor apresentado pelo método de 1996, daí a resultante redução nas emissões estimativas desses gases.

Estudos podem surgir ainda com fatores mais específicos para o caso da cana-de-açúcar, cujos resultados incidirão certamente em futuras estimativas estaduais de emissão. Nesse último método de 2006, explica o pesquisador Alfredo Luiz, as emissões não são medidas, e sim estimadas por meio de fórmulas. Nas fórmulas, cada país fornece seus dados de área e de manejo e utiliza parâmetros preconizados pelo método do IPCC.

Assim, destaca o pesquisador, o impacto final da aplicação dos novos parâmetros (IPCC, 2006) sobre as mesmas condições (área e manejo) foi a de aumentar o total emitido, quando comparado com as estimativas feitas para o mesmo ano com o método do IPCC de 1996. Entretanto, ao longo do tempo, com a adoção da colheita sem queima, houve uma redução nas emissões, independentemente do método utilizado para o cálculo. Os autores explicam que as emissões totais estimadas referentes a 2015 correspondem a uma redução de 44,3% em relação a 1990.

Segundo a análise da pesquisadora da Embrapa Magda Lima, autora do trabalho, esse decréscimo evidencia o papel da legislação estadual e de sua implementação sobre o controle de queimada. “Além disso, o trabalho mostra que as estimativas de emissão de metano em 1990 resultaram em valores 4% inferiores aos obtidos no relatório de referência sobre o setor de agricultura do 1º Inventário, publicado em 2015, o qual se baseou na aplicação do método do IPCC de 1996 para o período de 1990 a 2008. No mesmo ano, as estimativas de emissão de óxido nitroso e de nitrogênio foram 50% inferiores às estimadas pelo método do IPCC de 1996, enquanto as emissões de monóxido de carbono foram 55% superiores,” relata a cientista.

Produção de cana em São Paulo

São Paulo é o principal estado produtor da cana-de-açúcar, com mais de 423 milhões de toneladas produzidas em 2015, o que representa 54,8% da produção nacional e área colhida de cinco milhões de hectares, 56,6% do País. Em 2006, 469 municípios paulistas colheram cana-de-açúcar, enquanto em 2015 foram 508, do total de 645.

Observou-se maior densidade de áreas de cultura na região nordeste paulista, e, consequentemente, maior quantidade emitida de gases, sobretudo em 2006, quando havia ainda grande incidência de queima na pré-colheita. Em 2015, a prática de colheita crua fica bastante evidente e apresenta o efeito progressivo da legislação de controle de queimadas.

A pesquisa Produção Agrícola Municipal (PAM) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não discrimina a área colhida por uso do produto, ou seja, não especifica se a produção se destina ao setor sucroalcooleiro, à fabricação de cachaça, rapadura ou para alimentação animal. As estimativas levaram em consideração a área total colhida conforme a base de dados da PAM.

Legislação

A queima busca facilitar as operações de colheita, promovendo a eliminação das folhas. A Lei 11.241 de 2002, que trata da exclusão dessa prática no Estado de São Paulo, determina que nas áreas mecanizáveis (cuja inclinação é igual ou inferior a 12%), o uso do fogo deverá ser suspenso gradativamente até 2021.

O Protocolo Etanol Verde, iniciativa do governo estadual e do setor sucroenergético, antecipou esse prazo para 2014 e prevê a concessão anual de um certificado de conformidade aos produtores que adotarem boas práticas de manejo. Nas áreas consideradas não mecanizáveis, a queima, que deveria ser totalmente abandonada até 2031, teve sua eliminação antecipada para 2017.

As estimativas registradas foram derivadas de dados obtidos por outras instituições, os de área colhida utilizados são oficiais gerados pelo IBGE, órgão responsável pelas estatísticas agrícolas brasileiras, e os dados de queima foram produzidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Entretanto, é importante ressaltar que, como toda estimativa, o resultado final é uma aproximação do valor real.

A colheita da cana era feita integralmente com queima até 1995. Em 1996, com a chegada ao País de máquinas colheitadeiras específicas para a cultura, teve início a colheita sem queima em 10% da área do Estado de São Paulo. Em 2002, foi aprovada a lei que determinou o fim gradual da queima de cana em áreas planas no estado e seus efeitos começaram a ser percebidos a partir de 2006. Atualmente o percentual de cana colhida sem queima está próximo de 80%.

De acordo com os autores, com base na tendência de redução da prática da queima observada em todas as regiões do estado, pode-se assumir que os valores apresentados não estão distantes daqueles realmente praticados.

O impacto da aplicação do método do IPCC sobre as estimativas estaduais de emissões de gases foi notório e, à medida que novos estudos sobre fatores de emissão específicos para cana-de-açúcar tornarem-se disponíveis, será possível aprimorar ainda mais as estimativas.

Fonte: SFAgro

Bons ventos para o setor sucroalcooleiro

Este ano começou com boas notícias para o setor sucroalcooleiro: o governo divulgou, em fevereiro, as principais diretrizes do programa RenovaBio, que prevê o avanço do setor de biocombustíveis, no país, até 2030.  As ações previstas deverão buscar competitividade na produção, comercialização e no uso de biocombustíveis, com estímulo à concorrência em relação aos combustíveis fósseis.

Lançado no final do ano passado pelo Ministério de Minas e Energia, com o apoio de entidades do setor sucroenergético, o RenovaBio é o primeiro passo para mudar a situação de falta de incentivos e de políticas públicas que tem penalizado o segmento nos últimos anos.

O programa visa à sustentabilidade ambiental, econômica e financeira, ao definir o papel dos biocombustíveis na matriz energética brasileira, estabelecer regras de comercialização e também o investimento em novos biocombustíveis, como o etanol de segunda geração, já produzido em nosso país.

A expectativa é que este conjunto de ações ajude a alavancar a produção de etanol e de biodiesel e, como consequência, contribuam para que o Brasil cumpra as metas que assumiu no Acordo de Paris.

Ao ratificar o Pacto de Paris, acordo considerado histórico no combate ao aquecimento global, no qual os signatários assumiram o compromisso de envidar esforços para que o aumento da temperatura não passe de 1,5ºC, o Brasil oficializou o compromisso de ter, até 2030, 45% de fontes renováveis de energia na matriz energética, ampliando o uso de energia solar, eólica e biomassa. Para atingir essa meta, será preciso adotar políticas de incentivo, como as previstas no RenovaBio.

O etanol é parte fundamental para que este objetivo seja cumprido. A previsão é de que o Brasil deverá produzir 54 bilhões de litros de etanol em 2030. Atualmente, o país produz cerca de 28 bilhões de litros de etanol por safra/ano.

Nessa luta pela sobrevivência da humanidade, nosso país tem todas as condições para servir de exemplo ao mundo, que quer abolir essa civilização carbonária que nós construímos com emissão de CO² e edificar uma nova civilização, com combustíveis renováveis. Frente a esse cenário, o setor sucroenergético tem uma grande responsabilidade na construção de uma nova história.

Antonio Carlos Mendes Thame é professor (licenciado) do Departamento de Economia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz e deputado Federal pelo PV-SP

Artigo publicado no portal Udop

Biomassa é oportunidade para energia renovável e indústria química no País

A produção agrícola e florestal tem papel de destaque na fatia de renováveis da matriz energética brasileira, uma das mais limpas do mundo. Da energia hidráulica vem 64% do que consumimos em eletricidade. Quando se considera, contudo, toda a energia utilizada no País, quem fica com o primeiro lugar entre as fontes renováveis é a cana-de-açúcar. Lenha e carvão vegetal, outras biomassas importantes, ocupam a terceira posição, logo depois das hidrelétricas.

O papel atual e futuro da biomassa para o fornecimento de energia e para a bioeconomia é o tema da apresentação do chefe-geral da Embrapa Agroenergia, Guy de Capdeville, no Congresso Internacional de Energias Renováveis e Sustentabilidade (Ciers), que acontece hoje, em Brasília/DF.

A cana-de-açúcar é destaque porque dá origem ao etanol e ainda gera energia para movimentar as usinas e excedente para a rede. Esse setor, contudo, está no limite da capacidade de produção, enquanto não houver novos investimentos, aponta Capdeville. Em contrapartida, ainda há capacidade ociosa nas usinas de biodiesel, biocombustível atualmente misturado ao diesel na proporção de 8%.

Para o chefe-geral da Embrapa Agroenergia, o País tem na biomassa uma oportunidade tanto para aumentar a já significativa participação de renováveis em sua matriz energética quanto para equilibrar a balança comercial da indústria química, que tem mais de US$ 30 bilhões de déficit anualmente. No centro de pesquisa, os pesquisadores estão desenvolvendo tecnologias para o aproveitamento total da biomassa (caldos, óleos, bagaços, folhas, resíduos do processamento, etc), gerando não só biocombustíveis, mas também produtos químicos e biomateriais.

Fonte: Canal Bioenergia

Começa a colheita de cana no centro-sul do país

No centro-oeste paulista, expectativa é de queda na produção, pode passar dos 10%.Falta de investimento e canaviais velhos são os problemas.

A safra está só começando, ainda há muito trabalho pela frente na propriedade do seu Arnaldo, em Jaú, no centro oeste de São Paulo.
São 1.500 hectares de cana de açúcar que devem produzir 85 mil toneladas. É uma produção considerável, mas bem a abaixo do que ele esperava – 15% a menos em comparação com a safra passada.

Segundo o presidente da Orplana – organização que representa 17 mil plantadores de cana da região centro sul do Brasil, o crédito escasso e o envelhecimento dos canaviais estão entre os motivos para uma safra menor.

Queda no campo e também nas usinas. Segundo levantamento da UNICA – União da Indústria de Cana de Açúcar -, nessa safra, as usinas da região centro sul do país devem moer quase 600 milhões de toneladas. São 20 milhões a menos em comparação com a safra passada – 47% da produção dessa safra será destinada a produção de açúcar e 53% para o etanol.

Fonte: Globo Rural

Produtores investem em técnicas para reduzir custos em canaviais de SP

Uso de mudas pré-brotadas e da meiosi também têm feito aumentar a produtividade dos cultivos de cana-de-açúcar no estado.

Uma nova maneira de plantar a cana-de-açúcar está reduzindo o custo e aumentando a produtividade da lavoura. Agricultores e cientistas de São Paulo, estado que mais produz cana no Brasil, falaram sobre a novidade.

Fonte: Globo Rural

Cana de açúcar no Brasil é uma atividade que engloba centenas de usinas, milhares de agricultores e trabalhadores e um cultivo que se espalha por 8 milhões de hectares. Para manter essa engrenagem funcionando, todos os anos uma parte dos canaviais brasileiros tem que ser replantada. Isso ocorre porque um cultivo costuma ter boa produtividade durante cinco safras. Depois, a produção tende a cair. É a hora de fazer a chamada reforma ou replantio do canavial.

O replantio da cana-de-açúcar pode ser feito de várias maneiras. Atualmente, o método mais comum é uma operação grandiosa. Um trabalho que envolve máquinas pesadas, tratores, transbordos. Tudo para fazer o transporte e replantio da cana-de-açúcar nas áreas que precisam de reforma.

Na fazenda no munícipio paulista de Motuca o trabalho é feito com plantadeiras, que despejam nos sulcos as mudas, também chamadas de rebolos ou colmos. São pedaços de cana que vão brotar no solo para dar origem a um novo cultivo.
O problema é que o trabalho mecanizado acaba ficando caro, principalmente para os agricultores médios e pequenos. Outro ponto negativo é que as mudas de cana ficam passando de uma máquina para outra sacudindo e batendo, o que reduz a taxa de brotação.
Como menos brotação, os produtores acabam usando uma grande quantidade de mudas por hectare. O que torna a operação ainda mais trabalhosa e cara.

Nos últimos anos, o custo alto da reforma se somou a um momento delicado: a cadeia da cana enfrentou uma crise, com preços baixos, clima desfavorável e endividamento. Com menos dinheiro, agricultores e usinas reduziram o ritmo do replantio.
“Nós ficamos aí com índice de renovação de 12% a 13% nas últimas duas safras. O ideal seria uma reforma de 18% da área colhida anualmente para ter um bom canavial, um canavial equilibrado”, diz o economista Antônio de Pádua Rodrigues.
De uns meses para cá, com a melhoria dos preços do açúcar, a reforma dos canaviais voltou a crescer, mas permanece abaixo da taxa ideal de 18%.

Foi justamente o cenário de crise dos últimos anos que acabou dando impulso para uma nova maneira de replantar os canaviais. O objetivo é reduzir custos e melhorar a eficiência da reforma.

Um dos pilares da mudança é a muda pré-brotada de cana ou MPB. A unidade do Instituto Agronômico de Campinas – IAC em Ribeirão Preto é referência nesse tipo de tecnologia. O agrônomo Marcos landell explicou que a grande mudança é abandonar o plantio baseado em toneladas de colmos e passar a plantar cana com espaçamento preciso, muda por muda.

A produção da MPB não é complicada. No IAC, o primeiro cuidado é obter colmos de qualidade, vindos de cultivos livres doenças. No viveiro, eles são cortados em pedaços pequenos, com apenas uma gema; recebem um tratamento anti-fungos e depois vão para a bandeja para o cultivo em substrato. Tratadas com todo o cuidado, as mudas brotam e crescem rapidamente. Em dois meses estão prontas para o plantio no campo.

As mudas pré-brotadas podem ser usadas no plantio de talhões inteiros de cana. Mas na prática a MPB tem sido mais usada num manejo diferente, chamado meiosi. Um método de replantio dos canaviais que surgiu nos anos 1990 na Universidade Estadual Paulista – Unesp, em Jabotical. Mas só nos últimos começou a ser mais usado por agricultores, principalmente em São Paulo.
O agrônomo Igor Pizzo é diretor técnico da Coplana, cooperativa do norte do estado que abriga 1,2 mil fornecedores de cana e vem estimulando o uso de meiosi em parceira com o IAC. “Meiosi é método inter-rotacional ocorrendo simultaneamente. O objetivo geral é a gente formar o viveiro de mudas dentro da própria área de renovação”, diz.

O método funciona da seguinte maneira: em uma área que será reformada, logo após a colheita, pelos meses de setembro e outubro, os agricultores preparam o terreno e plantam linhas de mudas pré-brotadas. O espaçamento é de 15 metros entre as linhas e 60 centímetros entre plantas. São essas mudas que, mais a frente, vão ser usadas para o replantio de toda a área. No restante do terreno, os agricultores semeiam leguminosas, como soja e amendoim.

Atualmente, esse modelo está sendo utilizado por 32 cooperados da Coplana, como Rogério Bonaccorsi. Ele tem 400 hectares de canaviais no município paulista de Luiz Antônio. Com orientação da cooperativa e do IAC, o agricultor passou a produzir as suas próprias mudas pré-brotadas e formou áreas de meiosi com cana e amendoim.

Segundo Rogério, a primeira vantagem da meiosi é que a cobertura com amendoim aumenta a umidade do solo e protege o terreno contra erosão. Outro benefício de plantar amendoim ou soja nas áreas de reforma é quebrar o ciclo doenças e pragas da cana, como o nematoide.

Seis meses depois do plantio da cana e quatro meses depois do plantio do amendoim, a área de meiosi está com as linhas de cana altas e bem formadas. E o amendoim está verde e forrando bem o solo. Nessa fase começa a colheita.

A colheita do amendoim ocorre entre fevereiro e março e tem duas etapas. Primeiro, esse o implemento arranca as plantas e revira o amendoim que estava embaixo da terra. Depois, outros equipamentos terminam a colheita e despejam o produto em caminhões. Todo o trabalho é feito por empreiteiros que arrendam as terras de Rogério. Eles cuidam do amendoim, desde o plantio até a venda final, e pagam um preço fixo de R$ 1 mil por hectare.

Terminada a colheita, a área que antes estava coberta com amendoim começa a receber a cana-de-açúcar. É a repicagem da cana, etapa final da renovação feita com meiosi.

A fazenda de um cooperado da Coplana em Jaboticabal começou a usar meiosi em 2012. O agrônomo Ismael Perina Júnior cultiva 580 hectares na propriedade. Na área em que o amendoim foi colhido há três dias a repicagem está sendo realizada por oito funcionários da própria fazenda. Eles cortam a cana das fileiras, plantadas com mudas pré-brotadas, e depois levam os colmos para os sulcos. Eles não ficam empilhados, como no plantio convencional, mas alinhados um a após o outro.

“A grande vantagem é que eu utilizo muito menos muda por hectare do que sistema convencional. Então, eu saio do uso de 20 toneladas para algo em torno de 4 a 4,5 toneladas por hectare”, diz o agrônomo.

Essa redução ocorre porque na meiosi a cana usada no plantio foi produzida a partir de mudas pré-brotadas. Um material uniforme, jovem e que, crescendo na própria área, não passa por transbordos ou máquinas pesadas, não sofrendo com batidas e ferimentos típicos do plantio convencional. Por tudo isso, os colmos têm grande capacidade de brotação.

Mas afinal, quanto custa fazer a reforma com MPB e meosi? Os valores variam de uma fazenda para outra. Enquanto o replantio convencional fica por cerca de R$ 7,5 mil o hectare, no caso da fazenda de Ismael, a reforma teve um custo médio R$ 4,8 mil por hectare. Isso já incluindo os gastos com mão-de-obra, insumos, mudas pré-brotadas – que ele compra de uma empresa privada – e a renda obtida com amendoim. Houve redução de 36%.

Além de conquistar fornecedores de cana, aos poucos, MPB e meiosi também estão sendo adotadas por algumas usinas de cana de São Paulo. Os pesquisadores do IAC avaliam que as tecnologias devem continuar ganhando espaço nos próximos anos em todo Brasil.
Os agricultores e cientistas ouvidos na reportagem afirmam que os canaviais formados por meiosi são mais vigorosos e produtivos, mas ainda vai precisar de mais tempo de pesquisa para saber qual é o real ganho médio de produtividade provocado por esse modelo de cultivo.

Fonte: Globo Rural

Importador deverá manter estoque mínimo de biocombustível, define governo

Embora fale sobre biocombustíveis de um modo geral, resolução do Conselho Nacional de Política Energética atinge diretamente o mercado de etanol anidro (Foto: Ernesto de Souza/Ed. Globo)

Importadores de biocombustíveis terão que atender as mesmas regras de estoques e atendimento ao mercado que os demais agentes no Brasil. É o que define uma resolução aprovada na última semana pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), ligado ao Ministério de Minas e Energia (MME).Para entrar em vigor, a norma ainda depende da assinatura do presidente Michel Temer e da publicação. Depois, a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a quem cabe regular o mercado nacional, deve estabelecer como será a aplicação das regras. Esse trâmite não tem prazo, de acordo com Departamento de Biocombustíveis do Ministério.“Agentes regulados que exercerem a atividade de importação de biocombustíveis deverão atender às mesmas obrigações de manutenção de estoques mínimos e de comprovação de capacidade para atendimento ao mercado exigidas dos produtores de biocombustíveis instalados no país”, diz o comunicado, divulgado no último dia 11 de abril.

Embora o Ministério de Minas e Energia mencione biocombustíveis, de um modo geral, a decisão do CNPE atinge diretamente o mercado de etanol anidro. Foi adotada, aliás, em meio a um forte aumento nas importações do combustível.

De acordo com o sistema Agrostat, do Ministério da Agricultura (Mapa), o Brasil importou 103,9 milhões de litros de etanol anidro de janeiro a dezembro de 2013. Em 2016, o volume saltou para 657,2 milhões. Neste ano, só no primeiro trimestre, a compra de etanol de outros países somou 580,1 milhões de litros.

A maior parte do que o Brasil importa vem dos Estados Unidos, cuja matriz de produção do combustível é o milho. Só em 2016, os norte-americanos venderam 655,3 milhões de litros, quase tudo o que foi comprado de fora pelo mercado brasileiro no período.

O diretor do Departamento de Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia, Miguel Ivan Lacerda de Oliveira, explica que a medida visa igualar as condições de competição. Segundo ele, o fato dos importadores não estarem sujeitos à política de estoques lhes garantiria vantagem em relação aos fornecedores do mercado doméstico.

Pelo regulamento atual da ANP, usinas, cooperativas e comercializadoras de etanol devem ter no dia 31 de março de um ano o equivalente a 8% do que foi vendido no ano anterior, caso o contratado com as distribuidores tenha sido de pelo menos 90% da produção. Se o volume contratado for menor do que 90%, esses agentes devem ter um estoque equivalente a 25% do vendido no ano anterior em 31 de janeiro e 8% em 31 de março.

Usando números hipotéticos, se uma usina produziu 100 milhões de litros de etanol anidro e contratou no mínimo 90 milhões para vender às distribuidoras em 2015 (ano civil, de janeiro a dezembro), em 31 de março de 2017 (final da safra 16/17) deveria manter um estoque de 8 milhões de litros. Se contratou menos que esse volume, deveria ter em estoque 25 milhões de litros em 31 de janeiro de 2017 e 8 milhões em 31 de março.

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Conselho Nacional de Política Energética reunido em Brasília (Foto:Saulo Cruz/MME)

Para os distribuidores de combustíveis, o regulamento da ANP obriga a manter de estoque de etanol anidro equivalente a 15 dias de comercialização média, levando em conta a mistura a ser feita na gasolina. As regras foram definidas com a finalidade de garantir o abastecimento de etanol anidro durante o período de entressafra de cana-de-açúcar.

O importador, desobrigado de formar estoques, trabalha ‘da mão pra boca’, explica Miguel Oliveira. ‘É mais fácil porque tem um custo mais baixo. Com a resolução, todos passam a ter as mesmas exigências regulatórias”, garante o diretor do Departamento de Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia.

Entrando em vigor a nova regulamentação, o importador terá duas opções, diz ele: constrói ou adquire uma estrutura própria de estocagem ou contrata de quem tem disponível. Esse “locador de tanques” pode ser, inclusive, uma distribuidora. Na visão do governo, equilibra a competição e possibilita o aumento da armazenagem, beneficiando o abastecimento interno.

Reivindicação

A mudança no regime de estoques vai ao encontro, de certa forma, das intenções de integrantes da cadeia produtiva nacional, que reivindicava medidas relacionadas à importação. A União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), por exemplo, chegou a pedir ao governo uma tarifa de 16% sobre o etanol do exterior, usando como argumento questões ambientais relacionadas ao combustível de cana-de-açúcar.

O diretor do Departamento de Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia reconhece que foram analisadas as reivindicações. Mas a conclusão foi a de que a medida mais eficaz seria a equiparação das regras de estocagem. “Não criamos barreira nem aumentamos imposto. Fizemos um diagnóstico e construímos algo que não vai impactar nossas relações internacionais. É melhor do que uma solução tarifária”, analisa Miguel Oliveira.

A União da Indústria de Cana-de-açúcar informou, por meio de sua assessoria, que não vai se pronunciar antes da resolução do Ministério de Minas e Energia ser publicada.

“Para o importador é mais fácil porque ele tem um custo mais baixo. Com a resolução, todos passam a ter as mesmas exigências regulatórias” (Miguel Oliveira, MME)

Visão semelhante à do governo tem Tarcilo Rodrigues diretor da Bioagência, empresa especializada na comercialização de açúcar e etanol no Brasil. Na opinião dele, a inclusão do importador no regime de estoques corrige uma distorção no mercado sem impedir a compra do combustível de outros países.

“A resolução não impede a importação, mas dá ao importador mesma obrigação. Operar para valer, e não ficar entrando e saindo do mercado, obriga a ter uma estrutura de capital”, argumenta, considerando que a decisão do Conselho Nacional de Política Energética é correta e “vai ao encontro do mercado”.

A resolução pode beneficiar também usinas de etanol de milho. Pelo menos na opinião do secretário de Política Agrícola, Neri Geller. Em postagens feitas em redes sociais, logo depois da resolução ser aprovada, ele avaliou que a medida garante competitividade aos produtores nacionais.

“Era uma reivindicação do setor e agora será atendida. Além disso, vai ser um estímulo a mais para os produtores de milho, que terão na produção do etanol uma alternativa de comercialização”, publicou o secretário.

No Brasil, o etanol de milho é produzido, principalmente, em Mato Grosso. No Estado que mais colhe o grão no país, o combustível é considerado uma importante alternativa para consumo de excedentes, principalmente em épocas de maior produção, quando os preços depreciam e a dificuldade de escoamento da safra fica mais evidente.

Em Campos de Júlio (MT), o milho responde pela maior parte da produção de etanol da Usimat, que utiliza a cana-de-açúcar para produção do combustível desde 2006 e, em 2012, incluiu o cereal na matriz. No ano passado, foram 51 milhões de litros de etanol de cana e 80 milhões de milho. Neste ano, devem ser 51 milhões e 130 milhões de litros, respectivamente.

Gerente industrial da empresa, Vital Nogueira também acredita que a mudança no regime de estoques de biocombustíveis deve estimular a produção nacional. Antes mesmo da publicação das novas regras, ele garante que o mercado já está se movimentando.

“Já tem gente que vislumbra a necessidade de mais etanol. É uma medida que vai deixar menos interessante importar e mais interessante fabricar internamente”, diz ele.

Raphael Salomão

 Fonte: Revista Globo Rural